História do RS para Políticos

O que o Agente Político Gaúcho deve saber: Breves comentários.

O Estado Gaúcho é um dos Estados mais politizados dentro da República Federativa do Brasil. Sua História política é traçada desde anais do século XVIII, mas é preciso lembrar que o Rio Grande do Sul, estado cujo povo é predominantemente conservador, ligado à terra, recebe antes da política o militar, o estancieiro, o homem que trabalha a terra de diversas formas, homem este que vai se juntar ao indígena do tronco Jê, principalmente Guarani, e assim forma a personalidade que até hoje molda o homem rio-grandense.

O Rio Grande do Sul foi palco notório de mudanças políticas ao longo dos anos até aqui, tendo seu ponto máximo nas famosas Guerra Guaranítica – Esta terra tem dono! –, Revolução Farroupilha e Proclamação da República. Este primeiro forma o senso de identidade Rio-Grandense pela primeira vez na História do Brasil, podendo ser considerado um dos movimentos nativistas no território Nacional; o segundo molda nossa identidade política, apadrinhando nosso ideal de República, Liberdade, Igualdade e Humanidade, bem como o início do pensar Rio-Grandense não apenas a nível regional, mas agora a nível Nacional, em uma enorme projeção epopeica que viria a mudar os andares da História não só do Estado, mas também do Brasil como um todo; o terceiro a confirma, com a participação do Partido Republicano Rio-Grandense na Campanha Abolicionista, na Questão Militar e, por fim, na Proclamação da República, sendo o Rio Grande do Sul considerado a terceira força entre os Estados, atrás somente do dominante eixo Minas Gerais-São Paulo, algo que mudaria com a Revolução de 1930, quando o Rio Grande do Sul, por meio da Frente Única Gaúcha, oriunda do Partido Libertador e do PRR já citado, ascende ao poder e transforma permanentemente os ditames da política Federal. Só temos a nos orgulhar de nossa História.

Alfredo Varela muito escreve sobre a Revolução Farroupilha e suas origens, e é altamente recomendado como uma das principais leituras sobre aquele que busca saber sobre o povo Gaúcho. Ele mostra, essencialmente, como o Gaúcho proclama sua República e logo em seguida, diferentemente do que foi documentado oficialmente antes, busca por uma Federação com as outras províncias, aproximando-se dos Cabanos no Pará e dos futuros Praieiros em Pernambuco. Sobre a busca incessante pela Federação, ele escreve:

Prolongou-se por demais a labuta do vedor d’água, esquadrinhando de onde promanam as torrentes subtérreas que concorreram para o dilúvio de 1835 ou especulando sobre a natureza efetiva que tinham. Parecerá a muitos digno de reparos da censura, que o esforço da pesquisa e do julgamento seja inatrativo ou desamino. O autor, se acaso for austera consigo a crítica, sentir-se-á tranquilo, ao abrigo do que sentencia um antigo de muita reverência. “Para mim, escreve, devem merecer um particular interesse no campo das letras, aqueles que, se bem capazes de vencer dificuldades, preferem o mérito de ser úteis, ao de agradar” […] E sob uma tão augusta sombra, volto a juntar algumas regras, à tese em exame: o programa Federalista, de velho senso. A sua adoção, com a República, Proclamada em hora mais propícia do que a tivemos em 1889, ou com o Império, sob o ceptro de um homem de perfeita probidade, qual foi D. Pedro II; houvera feito do Brasil, a Inglaterra Americana. [1]

         Fica óbvio saber que Varela muito foi idealista ao desejar Pedro II como Presidente, mas nisso mostra que o sistema Federativo sempre foi desejado por nós, Gaúchos. O Rio Grande do Sul sempre buscou o máximo da Democracia possível, como é descrito pelo PRR e depois pela Aliança Liberal, que lançou Getúlio Vargas à Presidência em 1930, buscando o voto secreto, criação da justiça eleitoral para combater as fraudes constantes, independência do Poder Judiciário, reforma administrativa e valorização do Serviço Público e a proteção da produção interna, além de posteriormente buscar a ampliação do direito ao voto também às mulheres [3]. Ainda nesse período, Borges de Medeiros inicia de forma pioneira as negociações com os sindicatos para atender pela primeira vez a luta por direitos trabalhistas durante as greves de 1917 e 1918 [2].

         Nessa mesma busca pela Democracia temos o uso de referendos e plebiscitos na Constituição Estadual de 1891 [4], aproximando o povo do meio político já pouco após a Proclamação da República. Desse modo, pode-se dizer que o Estado Gaúcho, tão enraizado na cultura euro-indígena, militar e estancieira, busca por uma forma muito mais orgânica de fazer sua política, com todos os argumentos aqui citados. E essa forma de fazer Democracia é mostrada, também de forma pioneira, na manutenção do Orçamento Participativo na capital do Estado Gaúcho, Porto Alegre, que conseguiu atrair grandes pesquisadores renomados para estudar o modo do povo reivindicar e participar diretamente nos investimentos municipais, como Boaventura de Sousa Santos e Mário Sérgio Cortella [5]; [6].

          O peso do plebiscito é tanto que até pouco tempo para fazer-se a privatização de uma empresa era requerido uma consulta popular para definir se esta era seria vendida ou não, tamanho é o peso da Democracia na pampa.

         Dito isto, o agente político rio-grandense deve saber que o Estado Gaúcho, em suma, é majoritariamente Republicano, Democrático, Federalista, de grande aspiração Nacional e devoto a trabalhar não somente pelo, mas ao lado do povo que defende o imenso rincão que é a Província de São Pedro do Rio Grande do Sul. Neste breve artigo, trouxe à refresco da memória aquilo que o homem que buscar a vida pública deve ter em mente sempre que estiver representando o povo ou o Estado no trabalho político, tendo o passado, a cultura e a História do seu povo sempre como Norte, assim como fez o Patriarca do Rio Grande do Sul, o Dr. Júlio Prates de Castilhos.

Referências:

  1. História da Grande Revolução, Vol. I; VARELA, Alfredo. 1933. Ed. O Globo.
  2. Redalyc.A questão social no Rio Grande do Sul: positivismo, borgismo e a incorporação do proletariado à sociedade moderna
  3. ALIANCA LIBERAL | CPDOC – Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil (fgv.br)
  4. www2.al.rs.gov.br/biblioteca/LinkClick.aspx?fileticket=oknlkK_3Etc%3d&tabid=3107
  5. Orçamento participativo em Porto Alegre: para uma democracia redistributiva | Estudo Geral (uc.pt)
  6. anais seminário Democracia e Soberania.PDF (camara.leg.br)

Rafael da Fontoura. Porto Alegre, 15 de Maio de 2020

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