Formação Étnica do RS (Parte I) – Rafael Fontoura

 Formação Étnica do Estado do RS

Capítulo I: Primeiras ocupações Jesuíticas e o Indígena (Parte I).

         É impossível falar em Rio Grande do Sul sem falar dos povos originais do Estado, principalmente pois são estes povos que nos dão grande parte da cultura Gaúcha, a qual nos dá orgulho de sermos Sul Rio-Grandenses. O Estado Gaúcho possui origens históricas ligadas a três raças formadoras, sendo elas a indígena, majoritariamente Guarani e Minuana; a europeia, majoritariamente Ibérica e minoritariamente Germânica, Itálica e Polaca; e africana, majoritariamente Bantu e Iorubá. Serão feitos três artigos-capítulos para analisar detalhadamente a formação dessas três raças no Estado, e ao final será elaborada uma conclusão que mostre como as três raças formadoras se unem formando a Etnia brasileira, aqui externalizada na sub-Etnia Sul Rio-Grandense. Neste trataremos da cultura indígena, do índio guarani, do minuano e das Missões Jesuíticas no Estado Gaúcho. Este artigo é uma continuação do anterior publicado neste site.

         A História do Rio Grande do Sul como hábitat começa a cerca de 13-12 mil anos antes do presente (AP), com o fim da glaciação, quando o clima muito mais seco e gélido do que temos hoje no Rio Grande permitiu aos animais da chamada megafauna habitar todas as partes do atual Estado, principalmente as localidades da Campanha Gaúcha, em especial a região que hoje seria São Francisco de Assis. Assim como o sertão nordestino já foi floresta antes do início das secas, a nossa Banda Oriental — região que abriga o Rio Grande do Sul e o Uruguai — era composta majoritariamente de savanas, o que tornou fácil a adaptação dos povos indígenas que nela decidiram fazer sua habitação temporária como caçadores-coletores. Estes povos caçadores-coletores vieram da margem oeste, provavelmente pela Argentina, e viriam a desenvolver culturas próprias na região. Falaremos, agora, um pouco sobre essas culturas:

         Primeiro, teremos aqui a Tradição Umbu, que foi a primeira a desenvolver uma espécie rústica de indústria lítica. Habitantes da campanha, utilizaram as pedras para formar lanças e flechas, com as quais caçavam animais também nômades como eles, possivelmente aves e quadrúpedes em geral, pois foram os primeiros a desenvolver o uso de boleadeiras, artigo importantíssimo para a cultura Gaúcha até hoje. Sua tradição foi de longe a que mais perdurou na Banda Oriental, tendo em média 11 mil anos de existência, resistindo às adaptações climáticas dos períodos, que modificou de modos extremos a fauna e a flora da Pampa que eles conheceram. Por volta de 6 mil anos AP, os Umbus expandem sua esfera habitacional e conquistas devido à elevação das temperaturas na região, chegando às serras e ao planalto Gaúcho, onde sofreu a grande transformação a partir do uso da marcenaria e outras artes, em especial a pintura, caracterizada nas gravuras rupestres surgidas no Estado. Temos aqui a Tradição Humaitá.

         Essa tradição deixou muito mais marcas do que a Umbu, embora tenha durado menos do que a antecessora. Usaram muitos utensílios de madeira do que de pedra, deixando-a para confecção de armas e utensílios realmente básicos, como facas, pontas de lança e de flechas. A altura deles era semelhante à altura europeia, com a média de 1,60 metro de altura, e se alimentavam principalmente de moluscos e crustáceos na primeira fase de sua tradição, dando origem à Tradição Sambaqui, uma subdivisão de sua cultura voltada à região litorânea por eles conquistada. Posteriormente incorporaram a pesca na segunda fase, passando a utilizar os ossos do peixe para formar os mangos e até mesmo pontas de faca, muito usados até hoje na estilização cultural do Gaúcho também. Por fim, vem a caça, fruto da antiga Umbu, onde passam a usar os ossos dos animais para adorno. Sua expansão foi estável, conquistando o oeste catarinense e paranaense, onde surgiu um complexo cultural notável, na divisa que hoje fazem a Província de Missões na Argentina com o Paraná: a Altoparanaense. No Rio Grande do Sul temos outros exemplos: Na Campanha temos o complexo de Itaqui; na região do Rio das Antas e Pelotas temos a Camboatá e a fase Antas, entre outras.

         A Tradição Sambaqui-Humaitá deixou profundas marcas no litoral Gaúcho, em especial pela construção que lhes dá o nome: o sambaqui. O sambaqui, para o bom entendedor, é a criação a partir das conchas e pedras em geral para qual os indígenas da tradição utilizavam para santuários e demarcação de fronteira, na qual construíam suas ocas e habitações, sempre feitos de forma cônica ou esférica, possuindo variadas alturas, provavelmente um exemplo para destacar quantos viviam nas comunidades próximas ao sambaqui em questão. Os Sambaqui-Humaitá utilizavam anzóis e redes com pesos, demonstrando um grande conhecimento em relação ao mar e à pesca, além de terem desenvolvido até agricultura rudimentar, provavelmente vivendo de forma sedentária em algumas partes do ano para se preparar ao inverno. Ocuparam também as coxilhas do Estado, assim como regiões alagadiças, o que reforça o uso dos sambaquis.

A 3 mil anos AP, o clima se estabiliza nas condições similares à atualidade, com um esfriamento da temperatura. Nas serras e no planalto Gaúcho a geada e a neve eram a lei, o que levou aos povos Humaitá ocuparem abrigos subterrâneos, usando a palha e uniram aldeias. Temos, finalmente, o início do Anno Domini, 2 mil anos AP, onde começou a imigração dos índios Guarani para a região. Deixarei ao final a sugestão de um mapa para entender as ocupações da época.

Os Guaranis vieram da Amazônia, provavelmente pelas modificações climáticas que influenciaram os fortes períodos de chuva e humidade da região amazônica do Brasil. Eles já desenvolveram a agricultura, manejo de animais, sabiam manufaturar a argila e faziam uso de rústica metalurgia. Ocuparam principalmente o centro e o litoral do Estado, evitando as partes mais frias da Serra e do Noroeste, preferindo regiões similares a sua floresta original. Suas habitações se distinguem das outras tradições pela forma dos assentamentos, em aldeias mais estáveis e estruturadas, e pela abundância de artefatos em pedra polida como pontas de flecha, machados, maceradores, e vasos em cerâmica de diferentes formatos e decoração, técnicas que se observa doravante aparecer nos assentamentos de outros grupos. A sua influência também se revelou na expansão da agricultura. Junto deles vieram os pouco falados Jês, que ocuparam principalmente o Planalto. Sua influência foi tão grande que assimilaram os Humaitá, mas logo foram assimilados pelos Guaranis que vieram do Norte também. Os que resistiram a tais influências foram alguns poucos Jês do Planalto, como os Caingangues d’hoje, e os Charrua-Minuanos, já praticamente extintos devido à colonização e conflitos, embora alguns indígenas, inclusive uma tribo que visitei próximo à fronteira de Porto Alegre com Viamão, reclamem ser herdeiros e descendentes destes Charruas que aqui cito. Daqui, partimos a falar das Missões e seu impacto na formação do povoamento Sul Rio-Grandense.

Já no século XVI os colonizadores portugueses reclamavam a Banda Oriental como sendo sua Capitania d’El-Rei, num modo similar ao feudalismo europeu, onde os Capitães-Gerais eram como os senhores feudais, mas não haviam ocupado efetivamente a região em questão. O máximo que ocupavam seguia o Tratado de Tordesilhas, limitando a fronteira em Laguna, mas mesmo assim os bandeirantes a mando da coroa lusitana violavam tal espaço a busca de riqueza e escravização indígena. A ocupação militar era impossível, mas houve uma forma de burlar tal regra durante a União Ibérica, por meio de Bula Papal, a Romani Pontificis Pastoralis Solicitudo, que permitiu ao Bispado do Rio de Janeiro, hoje Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, ocupar a região até o Rio da Prata para estabelecer suas missões. Iniciava, portanto, o conflito limítrofe entre espanhóis e portugueses.

A primeira tentativa de invadir a região fracassou em 1677, mas a de 1680 de Manuel Lobo alcançou o sul da Banda Oriental, estabelecendo a Colónia do Sacramento, tendo inclusive um presídio. Castela não respondeu de forma efetiva pois estava em guerra com a França, ocorrendo apenas uma resposta militar fracassada. O Tratado de Lisboa de 1681 cedeu a Colônia aos lusitanos. Seguida à ocupação de Laguna por Francisco de Brito Peixoto veio a ocupação de Santo Antônio da Patrulha e Viamão, oriunda dos tropeiros da região. Foi criada a “Estrada Real”, ligando São Paulo até Viamão, o que facilitou a criação de estâncias até 1734. Disto trataremos mais no próximo artigo, em que falarei da fundamentação da cultura europeia no Estado e suas influências marcantes na cultura Gaúcha e Sul Rio-Grandense.

Continua na Parte II.

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