Formação Étnica do Rio Grande do Sul (Parte II). Rafael da Fontoura

Formação Étnica do Estado do RS (Parte II).

Rafael da Fontoura

A ocupação missioneira foi a grande pioneira no Estado, chegando antes mesmo dos tropeiros, diferente do que diz algumas teorias. O primeiro a chegar foi Padre Roque Gonzales de Santa Cruz, por volta de 1605, tentando estabelecer, sem sucesso, uma colônia no distrito de Rio Grande para catequizar os indígenas locais. Logo depois veio o grande grupo dos Jesuítas castelhanos, se introduzindo nas Missões de Tape e Sierra, entre os Rios Ibicuí e Jacuí, a partir do ano de 1609. Foram estas as primeiras ocupações do Estado Gaúcho. É a partir daqui que nossa História se desprende da uruguaia, para no futuro voltarem a trocar acenos discretos, frutos de um passado de união entre os Hermanos. Os indígenas dessa região eram tratados de forma similar às da Redução do Paraguai, aprendendo não apenas religião, Castelhano e Latim, mas também o pastoreio e criação de gado. As Missões paraguaias iam muito bem com o trabalho dos colonizadores, e seguiriam assim até a fundação do Paraguai como Nação Guarani, mas conosco não foi assim, como veremos aqui.

Posteriormente viriam os tropeiros que acima citei, forçando os missioneiros ao leste do Rio Uruguai, dispersando o gado e escravizando muitos indígenas, dando fim aos acampamentos em questão. Os missioneiros passaram a criar o gado ao sul da bacia do Camaquã, criando a famosa Vacaria do Mar. Anexarei um mapa às referências acerca disso. Foi dessa criação que surgiu a criação de gado da Campanha. Ao final do século XVII, os Jesuítas voltam para a região, e fundam os grandiosos e epopeicos Sete Povos da Missão: São Nicolau, São Luiz, São Miguel, Santo Ângelo, São Borja, São Lourenço e São João. Para salvar o gado que deixaram na Vacaria do Mar dos conflitos limítrofes entre portugueses e castelhanos, os Jesuítas os transferiram de lá para a Vacaria dos Pinhais, também chamada de Campos de Cima da Serra, onde surgiriam muitas cidades do Estado na fronteira de Santa Catarina, generalizando a criação de gado no Estado e dando início à cultura do nosso amado charque. Nas missões, o enriquecimento cultural foi tão grande que nossos indígenas catequizados se destacaram e muito dos indígenas ao Norte da Nação brasileira, tornando-se verdadeiros artistas. Os indígenas já dominavam a cerâmica manufaturada desde o final da Tradição Humaitá, e eles usaram essa prática para fazer as grandiosas esculturas ainda existentes tanto no acervo do Museu das Missões, de São Miguel, quanto no do Museu Júlio de Castilhos, de Porto Alegre. Um legado que ainda hoje fascina e surpreende quem visita os dois.

Em 13 de Janeiro de 1750, o sonho indígena, que viviam de forma tão edênica (isso nas palavras do próprio Darcy Ribeiro!) tem seu fim. Indiferentes ao modo exemplar de vida igualitária, fraterna e tão comunal dos missioneiros e indígenas, ocorre uma divisão territorial inesperada entre Portugal e Espanha: os portugueses perdem a Colônia de Sacramento e ganham as Missões Orientais, separando estes da atual Província de Missões, algo que levou os argentinos a reclamar parte do Oeste catarinense em resposta no futuro. Ficou acordado que as missões seriam transferidas para o oeste do Rio Uruguai, e os missioneiros esperavam um conflito. Os portugueses, por sua vez, liderados pelo Marquês de Pombal, ordenou a invasão Rio Pardo, e iniciou-se a Guerra Guaranítica. Os indígenas formaram exército próprio, venceram alguns poucos confrontos, mas acabaram por ser dizimados e os que não foram mortos se dispersaram. As missões foram pilhadas, algo que se seguiu até o século XIX e acabou com a perda de muito do material produzido pela experiência Jesuítica.

Neste conflito o Herói e hoje Servo de Deus, reconhecido pela Igreja Católica, Sepé Tiaraju perdeu sua vida. Sua morte acendeu uma chama que seria rememorada anos depois pelos Sul Rio-Grandenses, estabelecida principalmente pela frase “esta terra tem dono”. Devido à sua importância histórica, seu nome foi inserido no Livro dos Heróis da Pátria. O Município de São Sepé, desmembrado de Formigueiro, Santa Maria, Cachoeira e Caçapava do Sul, segundo uma das duas teorias, possui tal nome em sua homenagem.

Após o conflito e o fim das Missões, a História dos indígenas entra em forte fragilização documentária. Os indígenas do Sul do Estado, na Campanha e na fronteira com os castelhanos viveram os conflitos e invasões do Governador Ceballos do Vice-Reino do Rio da Prata. Os indígenas do Noroeste do Estado passaram a perder espaço para as colonizações italianas e alemãs, como aconteceu com os Coroados no século XIX, onde Luís Bugre confrontou os imigrantes alemães para garantir a proteção dos indígenas. O resultado foi a criação da Colônia de Caxias, hoje Caxias do Sul. Os demais foram se isolando cada vez mais, muitos sumindo. Os Charruas e Minuanos, remanescentes históricos da ocupação da Banda Oriental, iam sendo caçados e confrontados pelos castelhanos até sua extinção oficial. Somente recentemente é que foi descoberta uma chamada Tradição Vieira, fruto da Tradição Umbu citada lá em cima, e foi confirmado que os Charrua, Minuanos e Yarós eram os sucessores próprios dessa tradição.

Houve o Censo de 1872, onde ficou definido que no Rio Grande do Sul viviam 25.717 indígenas, sendo 12.613 homens, e 13.104 mulheres. No século XX, é criado o primeiro meio de proteção ao indígena, o Serviço de Proteção ao Índio e Localização de Trabalhadores Nacionais, o SPILTN, subordinado ao Ministério da Agricultura, Indústria e Comércio, fazendo parte do notável trabalho do Mal. Cândido Rondon, positivista ortodoxo, com base no projeto dos positivistas de 1890, buscava não apenas integrar o indígena à sociedade brasileira depois de anos de rejeição e opressão, mas também protege-los e tratá-los de forma diferenciada em relação ao povo brasileiro. Em 1917, o SPILTN se torna apenas SPI, e em 1928 os indígenas passam à tutela total do SPI, concretizando os desejos de Rondon. O tratamento, contudo, após os anos 40, foi da proteção para novos conflitos, em especial com os indígenas Caingangue, no Noroeste do Estado. Anexarei uma pesquisa às referências.

Até hoje os indígenas e muito de nossa cultura Gaúcha são fruto de debate e pesquisa, e politicamente dizendo, o Agente Político Gaúcho deve estar ciente de todas as práticas formadoras do nosso indígena para o que nos torna hoje, Gaúchos. O trabalho artístico indígena a muitos fascina, o mate que tomamos hoje é Gaúcho, cultivado inicialmente pelos indígenas das Missões paraguaias e de lá trazido e diversificado por toda a Pampa, desde a Argentina até o Rio Grande do Sul. O uso das boleadeiras, do chiripá, inicialmente minuano, também foi anexado à nossa cultura, assim como a criação do gado, originalmente na Vacaria do Mar, e por fim muito do nosso vocabulário, como o nosso famoso “tchê”, expressão que significa “meu” em língua Guarani e outros exemplos. Este artigo, mais longo do que o habituado, teve por fim mapear toda a criação habitacional do Estado Gaúcho e mapear todo o trabalho dos indígenas na formação cultural do Gaúcho, que será mais fácil de entender no próximo artigo, em que tratarei da colonização europeia, desde os colonizadores ibéricos até os alemães e italianos que para cá emigraram, bem como suas relações com os indígenas. Até hoje os indígenas lutam por seus direitos no Estado, como os remanescentes Charrua que visitei em 2018, muitos em conflito pelo que atribuem a uma “supremacia Guarani” com a Funai, sucessora do SPI. O Agente Político que quiser representar o Estado deve estar ciente da imensurável importância do indígena para com o Rio Grande do Sul — a qual nem mesmo o maior historiador poderia mapear precisamente, num trabalho que exige toda uma vida — não apenas para estar de acordo com a História do Estado, mas também para melhor resolver e compreender o que nos torna Gaúchos e Sul Rio-Grandenses.

Referências:

  1. Costa, Eimar Bones da (ed). História Ilustrada do Rio Grande do Sul. Porto Alegre: Já Editores, 1998
  2. E-BOOK.pdf (ufsm.br)
    Eckhardt, Maristela (ed). A sustentabilidade da Região da Campanha-RS : práticas e teorias a respeito das relações entre ambiente, sociedade, cultura e políticas públicas. Universidade Federal de Santa maria, 2010.
  3. 3395 (spgg.rs.gov.br)
     Thomas, Carmen. Conquista e Povoamento do Rio Grande do Sul. Ano não citado.
  4. Microsoft Word – 1279471348_ARQUIVO_textoAnpuhregional.doc
    Dornelles, Soraia Sales. O Protagonismo Histórico Indígena no Rio Grande Do Sul Do Século XIX: A Experiência De Luís Bugre. UFSM, 2010.
  5. Repositório Institucional UFC: A pedagogia da economia solidária na República Comunista Cristã dos GUARANIs, segundo Clovis Lugon
    Santiago, Girão Eduardo. A Pedagogia da Economia Solidária na “República Comunista Cristã dos Guaranis”, Segundo Clóvis Lugon. UFC, 2016.
  6. https://biblioteca.ibge.gov.br/visualizacao/monografias/GEBIS – RJ/Recenseamento_do_Brazil_1872/Imperio do Brazil 1872.pdf
    Recenseamento do Brazil em 1872.
  7. A atuação do Serviço de Proteção aos Índios no Rio Grande do Sul: uma análise a partir do Relatório Figueiredo (1963-1968) (jesuita.org.br)
    Flores, Andressa de Rodrigues. A atuação do Serviço de Proteção aos Índios no Rio Grande do Sul: uma análise a partir do Relatório Figueiredo (1963-1968). Unisinos, 2019.

Sugestões:

  1. RS índio (pucrs.br)
    Silva, Gilberto Ferreira da; Penna, Rejane; Carneiro, Luiz Carlos da Cunha. RS Índio: Cartografias Sobre a Produção do Conhecimento. Editora PUCRS, 2009.
  2. Mapa de la Compañía de Jesus (1752). Mapa de la governación de Paraguay y la de Buenos Ayres. – Aportes de la Historia
    Torre, Revello, Mapas y Planos referentes al Virreinato del Plata, conservadas en el Archivo General de Simancas, Taleres Jacobo Peuser, 1938, número VI. pp.; 12:13.
  3. Vacaria dos Pinhais :: Historia-do-rio-grande-do-sul (webnode.com)
    Mapeamento de Vacaria dos Pinhais. Profª Ana Luiza Jaskulski.
  4. Território Rural dos Campos de Cima da Serra: caracterização socioecológica, microrregiões e gestão territorial JENIFER RAMOS¹,², GABRIELA COELHO-DE-SOUZA¹, ² ¹ Núcleo Interinstitucional de Pesquisa e Extensão em Desenvolvimento Territorial e Etnoecologia – NIPEDETE ²Núcleo de Estudos em Segurança Alimentar e Nutricional – NESAN, Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Rural – PGDR, Universidade Federal do Rio Grade do Sul – UFRGS
    Ramos, Jenifer; Souza, Gabriela Coelho de, Território Rural dos Campos de cima da Serra: Caracterização socioecológica, microrregiões e gestão territorial.
  5. Ataques às reduções jesuíticas (ufrgs.br)
    Mapeamento da Vacaria do Mar, retirado de exercício da UFRGS.
  6. Populações antes da conquista | Atlas Histórico do Brasil – FGV
    Mapa da migração dos indígenas do tronco Tupi-Guarani e Macro-Jê para o Rio Grande do Sul, São Paulo e Rio de Janeiro.
  7. Atlas Socioeconômico do Rio Grande do Sul – 6ª edição by Secretaria de Planejamento, Governança e Gestão do RS – issuu
    Atlas Socioeconômico do Rio Grande do Sul. SSPG, 2021.

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