A Formação Étnica do RS (III) – A Colonização Ibérica Por Rafael da Fontoura

É impossível falar em Rio Grande do Sul sem falar dos povos originais do Estado, principalmente pois são estes povos que nos dão grande parte da cultura Gaúcha, a qual nos dá orgulho de sermos Sul Rio-Grandenses. O Estado Gaúcho possui origens históricas ligadas a três raças formadoras, sendo elas a indígena, majoritariamente Guarani e Minuana; a europeia, majoritariamente Ibérica e minoritariamente Germânica, Itálica e Polaca; e africana, majoritariamente Bantu e Iorubá. Serão feitos três artigos-capítulos para analisar detalhadamente a formação dessas três raças no Estado, e ao final será elaborada uma conclusão que mostre como as três raças formadoras se unem formando a Etnia brasileira, aqui externalizada na sub-Etnia Sul Rio-Grandense. Neste trataremos da cultura ibérica e colonial, do tropeiro e do açoriano, do teuto e do ítalo e das colônias criadas por estes bravos imigrantes no Estado Gaúcho. Este artigo é uma continuação do anterior aqui citado: [Artigo anterior neste site]

Como dito no último capítulo, os colonizadores Ibéricos já reclamavam a região do Prata desde o século XVI, algo confirmado com a Bula Romani Pontificis Pastoralis Solicitudo, que abriu caminho às primeiras explorações de bandeirantes no centenário posterior. Dentre elas, destaco aqui a expedição a Tapes de Raposo Tavares, em 1636, e a de Fernão Dias Pais, em 1638, ambas contra a ameaça castelhana à ocupação efetiva da coroa lusitana na Banda Oriental. Durante esse século, o Rio Grande do Sul, que ainda não existia de fato, estava em uma posição intermediária em relação ao resto do Brasil, preterido até mesmo em relação ao Pará, uma das regiões que mais recebia atenção de Portugal à época, em especial com as colônias jesuíticas de lá. A ocupação na região do nosso atual e amado Estado era ocupada, principalmente, por Jesuítas e indígenas convertidos, com apenas alguns poucos “bugres”, como chamavam os que recusavam a conversão.

Após o fim da União Ibérica isso começou a mudar. Portugal enviou um dos seus principais Generais para a região: Dom Manuel Lobo, veterano da Guerra da Restauração, que partindo com suas tropas acessou a Região do Prata e fundou a Colônia do Sacramento, iniciando a ocupação efetiva dos lusitanos na região além de Tapes e sua região. Lembro de ter dito que o Estado Gaúcho surgiu primeiro como região militar, e só depois como Província efetiva, e essa realidade bélica no Tape prova isso. Com a vitória na expedição e na defesa de Sacramento, Castela viu-se obrigada a aceitar o Tratado de Lisboa de 1681, que reconheceu a Soberania lusitana sobre a margem esquerda do Rio da Prata. Iniciou-se a era das tropas.

Mas, o motivo das tropas não era a ocupação populacional de fato. A ocupação era meramente situacional, sendo o Rio Grande um caminho para a Colônia de Sacramento e o comércio com os castelhanos no Vice-Reino do Rio da Prata. Nisso, houve uma pequena ocupação das terras ao norte do Estado, hoje Paraná e Santa Catarina, em especial de Laguna, fundada em 1676 como Vila de Santo Antônio dos Anjos da Laguna, cidade hoje muito querida por nós, Gaúchos, tanto por sua proximidade, quanto por sua lealdade quando da Revolução Farroupilha! Os pioneiros dessa fundação e da criação do primeiro projeto de ocupação do Rio Grande do Sul, entre Laguna e Sacramento, São Vicente e D’el-Rei, ironicamente, eram pai e filho, tal qual a relação anteriormente citada. Domingos e Francisco de Brito Peixoto fundaram Laguna, ambos bandeirantes, e asseguraram uma ocupação pacífica ao longo do litoral Gaúcho, buscando por prata (Argentina, nome do país de nossos Hermanos, vem de argentum, prata em Latim) e ouro, ocupando regiões nominalmente espanholas e jesuíticas tanto por este motivo, quanto pela proteção de Sacramento. Foi um grande sucesso.

Vários colonos que ao sentir que Laguna vinha se saturando moveram-se junto ao sul em expansão, e é aí que surge o trabalho épico que todo visitante do Palácio Piratini, em especial o salão Alberto Pasqualini, admirou: o Brigadeiro José da Silva Paes, considerado por muitos um dos patronos do Rio Grande do Sul, primeiro governador da Capitania de Santa Catarina, funda a cidade de Rio Grande, primeira capital do Estado Gaúcho, organiza expedições a Sacramento e repele a invasão dos castelhanos, agora já mais argentinos do que espanhóis, comandados por Pedro de Ceballos, que conseguiram ocupar por duas vezes a cidade. Sua única falha foi não tomar Maldonado a tempo. Foi em Rio Grande que houve a criação do primeiro governo Sul Rio-Grandense, e é aí que marca a transição do Rio Grande militarizado e jesuítico para o Rio Grande político, ainda que subordinado a Santa Catarina e a São Vicente de fato. Uruguai e Rio Grande do Sul unem-se mais uma vez na Banda Oriental com a tomada de Montevidéu. A Estrada Real é aberta até Viamão, e com isso Tramandaí e Vacaria são ocupadas por mais imigrantes, sendo feitas as concessões de sesmarias para os colonizadores. Em 1740, Alexandre de Gusmão, ministro d’El-Rei Dom João V, personagem ilustre da História do Brasil, deu o sinal verde para a imigração açoriana no litoral, ocupando principalmente a região próxima a Mostardas hoje, e em seguida chegando até onde era o antigo “Porto de Viamão”, posteriormente nomeado Porto dos Casais. Nascia ali Porto Alegre, capital do Estado Gaúcho. Ao todo cinco mil açorianos vieram na década de 48 a 58, recebendo terras e gado para trabalhar. Um fato curioso é que o Rio Grande do Sul era ocupado por famílias inteiras com interesse de aqui morar, diferente do que acontecia no norte da colônia brasileira, na qual homens ricos vinham se aventurar, arrecadar dinheiro e, convindo, ir embora para a metrópole. O Gaúcho sempre foi muito próximo e orgulhoso de sua terra, desde a origem.

Porém, a defesa de Sacramento tornou-se impossível, e como tratamos no anterior, houve a Guerra Guaranítica após o Tratado de Madrid de 1750. Anexarei uma sugestão de leitura sobre Sepé e a Guerra, algo mais focado na sua imagem do que tratei.

O conflito acendeu a preocupação de Portugal com o Rio Grande do Sul. A Capitania saiu do jugo catarinense para receber ordens diretas do Rio de Janeiro, recebendo seu primeiro governador civil. Porém, haveria outro conflito por conta de Cevallos, Vice-Rei do Rio da Prata, invadindo o Rio Grande na Guerra dos Sete Anos. Os conflitos seguiriam e Viamão tornaria-se capital provisória até 1773, quando Nossa Senhora Madre de Deus de Porto Alegre tornou-se a capital definitiva da Capitania.

Com o fim temporário da crise, a prosperidade econômica das estâncias fez florescer o nascimento daquilo que hoje entendemos por cultura Gaúcha, já que os indígenas remanescentes da Guerra Guaranítica e os soldados largados após o fim dos conflitos com os argentinos se juntaram no interior, germinando assim o “peão sem lei” que o Gaúcho da Fronteira e os Engenheiros do Hawaii cantaram na obra-prima “Herdeiro da Pampa Pobre”. O abuso de poder da recém-formada aristocracia Sul Rio-Grandense era total, e o conflito entre o Gaúcho marginalizado e os grandes senhores da terra fizeram emergir uma espécie pitoresca de “feudalismo” que permearia o Estado até 1897, quando o Estado foi reorganizado por Castilhos e Borges de Medeiros, até que Getúlio Vargas finalmente conciliasse os dois grupos. A rivalidade no futebol entre Internacional e Grêmio é parecida com isso, tomando um exemplo cômico, mas facilmente entendível.

Em meio a isso o Gaúcho e sua cultura se espalharam por todo o Estado, em especial na Campanha, ao sul, e na parte leste da pampa, juntando-se aos açorianos no século XIX, depois da Revolução Farroupilha. A proximidade com o índio lhes rendeu o mesmo uso das ferramentas que estes utilizavam, bem como o consumo do chimarrão a mate amargo tipo paraguaio, herdado das Missões Orientais, e o uso do seu chiripá, ainda na primeira fase deste Gaúcho. O Gaúcho era ao mesmo tempo que um boiadeiro e charqueador um servidor militar, armado para os conflitos que a estância enfrentaria, sejam eles argentinos, seus irmãos uruguaios após a criação da província Cisplatina e os conflitos da Banda Oriental, ou mesmo guerras civis, como em 1835 pela República de Piratini. Toda essa vida de conflito, proteção da terra, serviço no campo e vida livre formaram a cultura que hoje temos representada no MTG, este fundado por Paixão Cortes e Barbossa Lessa. Sobre isso, adicionarei mais uma leitura recomendada nas Referências.

A colonização a se tratar depois disso será a alemã, polonesa e italiana, que domina o século XIX da Capitania e então Província de São Pedro do Rio Grande do Sul, motivo de radical transformação na ocupação da região norte, central e serrana da nossa amada terra. O colono chegou num Rio Grande novo, completamente diferente daquele que viveu o século XVIII em suas campanhas e conflitos que marcaram o estilo de vida paternalista e cuidadoso do Estado, bem como aquela ideia de que o Gaúcho é um anarquista conservador, algo que se reforçou ainda mais com o foco do Sul Rio-Grandense metropolitano, que resistiu à ideia de se aproximar do Gaúcho até os CTGs do MTG reviverem e resgatarem toda essa epopeia cultural, epopeia cultural esta que fez época e marcou o Estado para sempre.

Referências e sugestões de leitura:

  1. Costa, Eimar Bones da. História Ilustrada do Rio Grande do Sul. Porto Alegre: Já Editores, 1998.
  2. Fortes, João Borges. Rio Grande de São Pedro, Povoamento e Conquista. Editora Martins Livreiro
  3. CIMI (archive.org) Suess, Paulo. O anti-herói Sepé Tiaraju; Comemoração e resistência.
  4. História do MTG – MTG RS HISTÓRIA DO MTG
  5. www.anpocs.com/images/stories/RBCS/15/rbcs15_03.pdf Oliven, Ruben George. EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO: o movimento tradicionalista gaúcho.

Por Rafael da Fontoura.

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